Newsletter nº3 da TroikaWatch

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Situação em geral

De modo semelhante ao dos últimos meses, o contexto europeu caracteriza-se pelas ações de branqueamento dos governos, enquanto para cada vez mais pessoas a situação piora. Depois da Irlanda, Portugal será provavelmente o segundo país a sair debaixo do guarda-chuva da Troika, em maio. No entanto, esta saída não deve trazer melhorias nas condições de vida dos seus habitantes, pois a austeridade continuará durante anos e é mais do que questionável se o nível da dívida poderá ser reduzido sem um considerável alívio da dívida.

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Nível europeu

Em muitos países a investigação do Parlamento Europeu à Troika [pt] [en] [nl] [fr] [de] [el] [it] [sl] [es] fez manchetes. Esta investigação afirmou claramente, como já relatámos, que por diversas vezes a Troika não cumpriu a legislação europeia. Infelizmente, de momento, a opinião do Parlamento Europeu sobre a Troika é irrelevante, porque o Parlamento não tem direito de tomar decisões sobre qualquer medida da Troika.

Portanto, esta investigação tem também de ser vista à luz do jogo de forças entre as diferentes instituições europeias. Apesar de valer a pena apoiar mais transferências de poder ao nível europeu, da Comissão e do Conselho para o Parlamento, duvidamos que isto possa levar a uma alteração substancial nas políticas europeias – as decisões principais continuam a ser tomadas à porta fechada.

A TroikaWatch escreveu um artigo sobre o relatório da investigação do Parlamento à Troika, que pode ser lido aqui [en] [fr] [de] [sl].

Um recente relatório da Caritas Europe, intitulado «The Impact of the European Crisis» (O Impacto da Crise Europeia), constata que o falhanço da UE e dos seus Estados Membros em dar apoio concreto à escala exigida para poder ajudar aqueles que lutam com dificuldades, proteger serviços públicos essenciais e criar emprego, irá provavelmente prolongar a crise. O relatório pode ser descarregado do site Social Justice Ireland [en].

Segundo a Troika, não cumprir regras parece ser a nova maneira de funcionar quanto a outros assunto da UE. Enquanto o Conselho Europeu e o governo alemão tentam de forma contínua ultrapassar o Parlamento Europeu na implementação dum novo mecanismo único de resolução (single resolution mechanism – SRM) para bancos falidos, a fracção Verde do Parlamento Alemão publicou um estudo [de] que conclui que a implementação de tal mecanismo sem uma votação válida no Parlamento Europeu seria mais uma violação da lei europeia. Este relatório chega à mesma conclusão que um breve estudo [en] em inglês apresentado no princípio deste ano pelo deputado ao Parlamento Europeu pelos Verdes, Sven Giegold.

No entanto, quando são atingidos interesses corporativos, os intervenientes poderosos sabem como exigir os seus «direitos». O relatório «Profiting from Crisis – How corporations and lawyers are scavenging profits from Europe’s crisis countries» [en] (Lucrando com a Crise – Como grandes empresas e advogados recolhem lucros dos países europeus em crise), recentemente publicado pelo CEO – Corporate Europe Observatory (Observatório Europeu das Empresas) e TNI – TransNational Institute (Instituto TransNacional), expõe uma crescente vaga de processos judiciais de empresas contra as economias europeias que se debatem com a crise. O relatório defende que estes processos dão-nos um salutar aviso dos potenciais custos elevados do acordo de comércio proposto entre os EUA e a UE.

Sobre o Acordo Transatlântico de Comércio e Investimento (Transatlantic Trade and Investment Agreement – TTIP), encontram-se mais detalhes num relatório publicado [en] pelo gabinete Europeu da Fundação Rosa Luxemburg.

Mas a resistência civil continua. Durante a última ronda de negociações entre a UE e os EUA sobre o acordo de livre comércio TTIP, o D19-20, Alter Summit, Blockupy Europe, S2B Network e a Rede Europeia ATTAC organizaram um protesto em Bruxelas, no dia 13 de março.

A Confederação do Comércio da União Europeia (ETUC) iniciou uma nova campanha “Um novo caminho para a Europa[en] [fr] e prepara nesse contexto uma manifestação em Bruxelas a 4-Abril-2014.

Estão previstos para maio mais protestos a nível Europeu, antes das eleições Europeias. Em vários países, grupos de cidadãos apelam a uma semana de ação, do dia 15 a 25 de maio [en]. A 15 de maio, em Espanha, o movimento 15M celebra o seu 3º aniversário e, a 17 de maio, a coligação Blockupy [en] [de] planeia protestos em Berlim, Düsseldorf, Hamburgo e Estugarda na Alemanha.

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Grécia

A comissão do Parlamento Europeu que está a investigar o trabalho da Troika visitou finalmente a Grécia em finais de janeiro. A data original foi adiada para não interferir com as celebrações no início da presidência grega da União Europeia. A comissão é dirigida por dois homens: o conservador Othmar Karas e o deputado europeu socialista Liêm Hoang-Ngoc. Othmar Karas abriu uma polémica com o líder da oposição grega Alexis Tsipras, alegando que Tsipras não apresentou qualquer proposta alternativa às políticas desenvolvidas pela Troika na Grécia. Esta afirmação seria contrariada por Liêm Hoang-Ngoc.

Entretanto o SYRIZA, que aparece claramente à frente nas sondagens recentes para as próximas eleições, tornou pública a posição que transmitiu à delegação no «Black Book of Troika» («Livro Negro da Troika») [en] [el].

Enquanto, por um lado, os resultados financeiros de 2013 anunciados pelo Governo grego no início de fevereiro foram melhores do que o esperado (recessão de -3,7%, balança de pagamentos e saldo primário em valores positivos, défice total abaixo dos 3%), por outro lado, o preço a pagar é pior do que o esperado: 28% de desempregados (60% para os jovens) e uma dívida que atingiu valores insustentáveis (acima de 170%).

O ministro das Finanças da Grécia disse que esperava estes números e por esse motivo rejeitou a exigência de mais 3000 milhões de euros em medidas de austeridade feita pela Troika em novembro, bloqueando as negociações [en] para a libertação da tranche de empréstimos inicialmente prevista para o final de 2013; a Grécia vê-se assim obrigada a emitir obrigações a curto prazo para ultrapassar este atraso.

Entretanto, os inspectores da Troika regressaram a Atenas para a sua avaliação relacionada com a libertação de uma tranche de 8800 milhões de euros necessários para o pagamento de empréstimos e de juros devidos até ao fim de maio, antes das eleições europeias. Para aprovar a libertação desta tranche, a Troika exige medidas que o Governo grego esperava poder adiar: um número adicional de 12.500 despedimentos de funcionários públicos, melhorar a «competitividade» seguindo as mais de 300 recomendações feitas num recente relatório da OCDE [en], assim como a redução das contribuições para a segurança social da parte dos patrões, e de vários outros impostos. Estes cortes nos impostos provocarão novos buracos nas contas gregas e, mais para o fim do ano, uma nova ronda de cortes orçamentais no orçamento dos serviços sociais – que o Governo queria evitar. Pelo menos uma das medidas incluídas no relatório da OCDE pode ameaçar a sobrevivência da indústria de lacticínios grega [en].

Espera-se que o Governo grego aceite estas condições nas próximas semanas para receber as prometidas quantias de dinheiro, parte das quais poderão ser usadas de forma eleitoralista para captar grupos-alvo de eleitores, na esperança de minimizar os fracos resultados dos partidos da coligação no poder, previstos tanto nas eleições locais como nas europeias, em maio. Apesar dos debates em curso dentro do Governo alemão sobre anúncios que poderiam ajudar a frágil coligação que governa a Grécia a enfrentar melhor estas eleições [en], a questão da dívida grega só será abordada após as eleições.

Uma batalha política de peso poderia de novo rebentar após estas eleições, entre o FMI e outros «pragmáticos» que querem reduzir ou atrasar o peso da dívida grega, continuar as reformas e depois dar-lhe o nome de «perdão» [en] e aqueles que não acreditam que todo o projeto de reformas esteja ameaçado e que por razões políticas (especialmente nos países do Norte da Europa) não querem ser vistos como estando, de qualquer forma, a ajudar a Grécia.

Aparentemente, a resposta do lado do Governo alemão é de impor nesta altura um novo memorando para a Grécia [en], para estender o poder da Troika sobre o país em troca de um novo resgate; isto aumentará a dívida grega para mais de 180% do PIB, enquanto estende o período de pagamento para mais 30 a 50 anos.

O FMI, mais pragmático que os seus parceiros da Troika, tem no passado defendido mais apoio financeiro à Grécia [en] como única forma sustentável de manter o compromisso ideológico com a austeridade. Este pedido de redução da dívida quando a dívida aumenta é motivado pela necessidade que o FMI tem de ter uma justificação para continuar a austeridade, apesar de esta provocar o aumento do desemprego e o colapso da economia. Assim, o FMI aceita afinal que, se um novo «pacote de resgate» for considerado necessário tanto pelo Grécia como pelos seus credores, mais medidas drásticas e severas serão pedidas em troca.

Outros, como o SYRIZA, mas incluindo também um economista alemão até recentemente membro da equipa da Troika na Grécia, Jens Bastian [en], têm manifestado o seu apoio a uma resolução segundo as regras decididas pela cimeira internacional de 1952 para a dívida alemã do pós-guerra – «para dar um melhor futuro à Grécia».

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Irlanda

A Irlanda também recebeu a visita de uma delegação do comité do Parlamento Europeu que investiga o trabalho da Troika. Durante esta visita, a organização Social Justice Ireland submeteu à Troika um documento com 22 páginas. Os pontos principais das suas conclusões sobre o trabalho da Troika são:

  • A abordagem da austeridade seguida pela Troika na Irlanda e noutros países sob resgate teve um fundamento academicamente pouco sólido; foi, na prática, um falhanço;
  • e não foi ética porque as pessoas mais pobres ou de rendimento médio têm suportado uma parcela injusta das suas consequências;
  • Apesar de tomar uma atitude draconiana quanto às finanças públicas, a Comissão Europeia não introduziu regulamentação suficientemente rigorosa para o setor financeiro;
  • Todos os programas de resgate futuros da Troika deverão ser obrigados a cumprir a Carta dos Direitos Fundamentais da União Europeia e os seus Tratados.

O relatório completo [en] está disponível.

Enquanto o ministro irlandês da Proteção Social vê os números do emprego na Irlanda como prova de que a situação económica do país regressou à normalidade, Michael Thaft olhou mais de perto e descobriu que, desde o começo da crise em 2008, o aumento do número médio de emigrantes por ano foi de 133,7%, comparando com os anos anteriores à crise. Thaft descobriu números ainda mais dramáticos em Espanha, onde a emigração aumentou 274%. Ver artigo completo, «Normal Euro zone Countries Don’t Export Their People» [en] (Os Países Normais da Zona Euro não Exportam o seu Povo) no Irish Left Review.

Morgan Kelly, economista da University College de Dublin e, de acordo com o jornal Irish Times, «o primeiro economista a prever a dimensão provável do colapso dos bancos irlandeses», avisou recentemente numa palestra na UCD Economics Society que a «verdadeira crise da economia irlandesa pode ainda estar para vir» [en]. Se os testes de stress aos bancos forem demasiado duros, poderão levar a uma contração de crédito, a que se seguiria a falência de milhares de pequenas e médias empresas.

Vejam a palestra completa aqui:

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Portugal

De junho de 2011 a dezembro de 2013, o nível da dívida pública aumentou de 172,3 para 204,3 mil milhões de euros. De acordo com as novas regras de contabilidade, que serão adotadas pelo Eurostat em setembro de 2014, e a inclusão de mais dívida escondida, o total da dívida portuguesa poderá até chegar aos 242 mil milhões de euros.

No final do ano passado o número de desempregados em Portugal tinha diminuído de 4,635 milhões de pessoas para 4,513 milhões; o nível de desemprego está agora nos 15,3% (34,7% de desemprego jovem).

Desde o início da presença da Troika em Portugal, os salários desceram 5%; isto aconteceu num país onde o salário médio é de apenas 700 a 800 euros. Não surpreende, portanto, que aproximadamente 265 mil Portugueses tenham emigrado desde a assinatura do Primeiro Memorando de Entendimento com a Troika, roubando a Portugal uma parte essencial da sua mão-de-obra quando tenta recuperar o crescimento.

Os resultados positivos na sua balança de pagamentos derivam de factos excepcionais: uma queda profunda do investimento (por ex. maquinaria importada, matéria-prima) e os efeitos da queda do poder de compra (à medida que as pessoas empobrecem) sobre bens de consumo importados.

Perto de 53% das ações de investimento estrangeiro (IDE) em Portugal é nos setores financeiros e imobiliários, que não são, se alguma vez o foram, setores de alta produtividade. Uma parte significativa do IDE vem dos Países Baixos e do Luxemburgo, para onde grandes empresas portuguesas transferiram as suas sedes por motivos fiscais; portanto, por exemplo, os supermercados portugueses agora contam como investimento estrangeiro. Isto transforma em exagero os números agora apresentados com a intenção de criar uma narrativa de sucesso na recuperação do investimento estrangeiro em Portugal.

O sentimento de alívio, proporcionado pelo chumbo pelo Tribunal Constitucional português à medida proposta pela Troika de implementar um corte de 10% nas pensões dos funcionários públicos, foi rapidamente deitado por terra quando o Governo decidiu tomar novas medidas [en] para compensar as verbas perdidas devido à não-implementação dos cortes nas pensões. As pessoas irão agora ter de descontar 3,5% em vez de 2,5% para o sistema público de segurança social da função pública (ADSE) e as contribuições extraordinárias já em vigor irão abranger os trabalhadores que ganham acima de 1000 euros em vez de ser a partir de 1350 euros.

Numa tentativa adicional de poupar dinheiro, o Governo prevê encerrar dezenas de tribunais e repartições de finanças em áreas periféricas onde não existe suficiente atividade económica e as pessoas vivem da agricultura de subsistência (ou seja, agricultores que produzem apenas o necessário para se alimentarem e às suas famílias), do pequeno comércio e das suas pensões ou reformas.

O programa de resgate a Portugal, de 78 mil milhões de euros termina a 17 de maio, o que significa que a Troika irá provavelmente abandonar o país – no entanto, a Comissão Europeia continuará a monitorizar o orçamento financeiro durante muitos anos no futuro.

A seguir, com ou sem Troika, a austeridade vai continuar: os credores internacionais apelaram aos partidos portugueses e aos cidadãos para apoiar «mais alguns anos» [en] de medidas de austeridade, e o último relatório do FMI conclui que «além duma consolidação fiscal continuada, é necessária uma continuada transformação da economia muito para além do período do programa», «Portugal continua a confrontar-se com grandes desafios económicos» e «Os riscos para atingir os objetivos do programa continuam altos».

No princípio de fevereiro a central sindical CGTP organizou manifestações em várias cidades portuguesas a que aderiram milhares de pessoas. Os manifestantes exigiram o fim das medidas de austeridade e sugeriram que para tal seria necessário a formação de um novo governo.

A seguir, a 7 de março, vários milhares de polícias manifestaram-se contra os cortes nos salários e nas pensões, em frente ao Parlamento português. Ficaram feridas dez pessoas durante os protestos.


Numa tentativa de capturar três anos de austeridade em imagens e vídeo, nove fotógrafos portugueses lançaram a iniciativa de crowd-funding Projecto Troika [en] [pt]. Antes do final de Setembro pretendem angariar 15 mil euros para o seu projeto, para publicar um livro e lançar um site e um DVD que reúnam as imagens que refletem o sofrimento das pessoas em Portugal devido às medidas da Troika – «um documento para memória futura».

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Chipre

A política da Troika no Chipre provocou uma recessão de 5,3% em 2013 e, de acordo com as previsões, em 2014 a recessão irá continuar. Apesar disso, cantam-se loas à «recuperação» do Chipre e as mensagens coordenadas e positivas dos parceiros da Troika parecem destinadas a dar uma sensação de «regresso à normalidade» da economia cipriota, enquanto continuam as medidas de austeridade.

Em fevereiro vimos greves e manifestações em massa contra o plano de privatização da empresa de telecomunicações do Chipre, a CyTA, vários portos e a empresa de energia, uma exigência da Troika para libertar a próxima tranche do resgate de 237 milhões de euros. O primeiro protesto maior foi a 8 de fevereiro, em frente ao Ministério das Finanças, Ministério do Trabalho e Casa da Europa.

Porém, a manifestação não evitou que a 13 de fevereiro o Governo aprovasse este plano.

Houve também muitas greves nas empresas em risco de serem privatizadas [en]. Quando o Parlamento começou a debater os planos de privatizações, houve confrontos entre os manifestantes e a polícia em frente ao edifício do Parlamento.

Alguns dias mais tarde, quando o Parlamento, acompanhado de mais protestos, votou este plano, os trabalhadores puderam celebrar uma pequena vitória: o Governo não teve maioria e, por agora, a privatização parou. ​Contudo era de esperar que o governo tentasse obter uma maioria na votação subsequente, o que de facto aconteceu.

A resistência civil às medidas da Troika tem estado muito presente no Chipre no último mês; além do conflito sobre as privatizações, houve um protesto maior dos obrigacionistas [en] em frente à sede do Banco do Chipre e uma greve dos funcionários públicos das British Forces Cyprus (base das Forças Armadas Britânicas no Chipre) empregados localmente contra as medidas de austeridade [en] nessa base militar.

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Espanha

Depois de em 2012 Luis de Guindos e Olli Rehn (Comissão Europeia) assinarem o Memorando de Entendimento que impôs «condições rígidas» ao Estado espanhol, o défice aumentou até 7.3% 2013 (10.6% 2012), a dívida pública chegou a 93,9%, de acordo com o Eurostat, e o desemprego está agora acima de 26%.

Numa ato de maquilhagem, o governo de Rajoy anunciou que o «resgate» a Espanha terminou (se, quanto a ele, alguma vez existiu). O que não é dito é que tanto as condições como a monitorização continuarão até que o último cêntimo de euro, com juros, seja devolvido, o que não acontecerá antes de 2027. Por isso, por mais que se fale sobre a Troika abandonar Espanha, a monitorização da Comissão Europeia e do Mecanismo Europeu de Estabilidade continuará durante anos – como também acontecera na Irlanda e em Portugal.

A sociedade espanhola continua a defender que esta dívida não é sua e que aquilo «que não devemos, não pagaremos»: um autêntico levantamento de cidadãos na defesa de direitos e serviços sociais.

E esta luta está a alcançar resultados, por exemplo, em relação ao plano de privatizações [pt] [en] [nl] [fr] [de] [el] [it] [es] dos hospitais em Madrid.

A resistência continua, com mobilizações contra a recente reforma da lei do aborto em Espanha, a lei mais restritiva da democracia espanhola, que empurrará de novo milhares de mulheres para o aborto clandestino. Partindo de vários pontos do país em resposta ao apelo «Madrid 22-M, Marchas pela Dignidade» (organizado, entre outros grupos, pelo Sindicato dos Trabalhadores da Andaluzia, os Campos de Dignidade da Extremadura e a Frente Cívica Somos a Maioria), marchas de protesto irão dirigir-se para a capital, culminando a 22 de março em Madrid. As suas exigências estão reunidas aqui [en] [fr] [de] [el] [es].


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Itália

O rácio da dívida pública em relação ao PIB em Itália permanece nos 133,3%, o segundo mais elevado de toda a Zona Euro (um valor absoluto de mais de 1,5 biliões de euros) enquanto a média europeia está nos 92,7%. Apesar de todos os governos nomeados nos últimos três anos – o governo tecnocrata de Monti, o governo de Letta e o recentemente nomeado executivo de Renzi – supostamente irem reduzir a dívida pública, a sua percentagem aumentou de 126% do PIB, no fim de 2011, para mais de 133% atualmente.

Renzi, o recentemente eleito secretário-geral do Partido Democrático, representa a ala mais conservadora do centro esquerda. Mais de metade dos Italianos têm expressado uma opinião positiva acerca do seu Governo e estão convencidos que poderá durar muito tempo.

Infelizmente, não representa a verdadeira mudança que os Italianos esperam porque, antes de tudo o mais, ele representa os lobbies ou interesses económicos e financeiros italianos e europeus. Pode ser visto como uma continuação dos anteriores executivos tecnocratas. Um exemplo disto é o novo ministro da Economia, Giancarlo Padoan, que foi anteriormente diretor executivo do FMI e vice-secretário da OCDE.

Entre as medidas anunciadas por Renzi está a chamada Lei do Emprego, que segue as linhas da «Estratégia Europeia sobre o Emprego». Este projeto-lei quer resolver o desemprego através da legitimação de novas formas de contratos precários. O nível de desemprego está em 12% (cerca de 3,3 milhões de pessoas), o nível mais alto desde 1977; para os jovens entre os 14 e 24 anos atinge 42,4%.

A 22 de fevereiro, dia nacional contra os comboios de alta-velocidade (NO TAV), milhares de pessoas reuniram-se nas principais cidades italianas, lutando contra os lobbies económicos e financeiros que fazem pressão para a implementação destes projetos, os quais poriam em perigo a saúde e ambiente das áreas afetadas.

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Eslovénia

A Eslovénia enfrenta ainda o sobre-endividamento da banca e do setor privado e uma intensa pressão da UE para impor medidas semelhantes às da Troika. Um dos modelos troikianos exportados para o país, para além das privatizações exigidas, é o modelo do «Mau Banco», na Eslovénia conhecido como Empresa Gestora de Recursos Bancários (em esloveno DUTB [en] [sl]), fundado em 2013.

A ideia do DUTB é de «fortalecer a capacidade e sustentabilidade financeira dos bancos do sistema e, por conseguinte, promover o crescimento económico». Deste modo, os bancos comerciais deveriam transferir parte do seu crédito malparado acumulado antes da crise para o DUTB. Depois, os bancos estariam disponíveis para cumprir a sua função de financiar a economia com os seus empréstimos, enquanto a Comissão Europeia (CE) e os investidores financeiros internacionais controlam todo o processo.

Para além de ter uma instituição que é um dos membros da Troika a governar o setor financeiro da Eslovénia e a determinar a sua economia nacional, é ainda mais preocupante que alguns dos gestores estrangeiros que detêm o controle têm uma óbvia ligação à Troika. Como exemplos temos Lars Nyberg, Arne Berggren e Carl-Johan Lindgren, que são membros do Conselho de Administração do DUTB. Lars Nyberg está intimamente ligado ao BCE, foi presidente do Grupo de Gestão da Crise do BCE e membro do Grupo de Larosière (um grupo de alto nível de especialistas da supervisão financeira na UE). Arne Berggren foi membro da equipa Troika do FMI em Espanha e o seu colega Carl-Johan Lindgren também trabalhou para o FMI. Não é de surpreender que a criação do DUTB tenha sido bem-vinda pelo FMI, pois foi vista como um passo significativo para resolver o problema dos ativos tóxicos.

A 17 de janeiro, o Governo esloveno nomeou um novo diretor não-executivo do conselho de administração do DUTB, Mitja Mavko, do Ministério das Finanças. É o responsável pelas Relações Financeiras Internacionais e a sua tarefa principal tem sido manter relações com instituições financeiras internacionais, além de ser vice-governador representando a Eslovénia no World Bank Group. O DUTB foi também fortemente apoiado pelo Banco da Eslovénia, pelo seu governador Boštjan Jazbec, que trabalhou anteriormente como consultor do FMI no Kosovo e no Suriname. Neste sentido, a Eslovénia está a enfrentar duras pressões para impor, por ela própria, medidas semelhantes às da Troika, sem qualquer controle público e adotando as suas estruturas desadequadas.

É preocupante que o DUTB possa significar que os contribuintes irão pagar por todos os aspetos financeiramente suspeitos que este banco irá herdar, enquanto as «partes boas» dos bancos serão vendidas a bancos e investidores estrangeiros. Os contribuintes irão pagar 3 mil milhões de euros para cobrir o buraco financeiro. Além disso, vozes críticas também se levantaram devido aos custos do DUTB, que foram de 5 milhões de euros; a maior parte dos contratos, no valor de 2,5 milhões de euros, foram dados à empresa de consultoria estrangeira Quartz&Co, cujo sócio Torbjörn Månsson é o diretor interino do DUTB. A questão dos custos do DUTB e a sua relação com a Quartz&Co foram comentadas por Lars Nyberg na televisão nacional da Eslovénia. Podem ver esta entrevista (minutos 20:15-27:00) em inglês, aqui.

O ministro das Finanças, Uroš Čufer, já admitiu que a Eslovénia está numa situação financeira difícil e que depende muito dos mercados estrangeiros e terá de continuar a pedir empréstimos por alguns anos. Após uma recuperação, a Eslovénia vendeu obrigações no valor de 3,5 mil milhões de dólares; uma reformulação da indústria banqueira do país no ano passado ajudou a reduzir o risco de um resgate. Uma venda arranjada pelos Barclays Plc, Goldman Sachs Group Inc. e JPMorgan Chase & Co. custou mais de 5 milhões de euros. «Esta é a maior emissão supervisionada de títulos de tesouro sob encomenda na Europa de Leste, Próximo Oriente e África em 2014», disse Irena Ferkulj, uma porta-voz do Ministério das Finanças.

No entanto, o Governo da Eslovénia não quer tornar pública a informação acerca da identidade dos compradores dos seus títulos de tesouro. Além disso, o facto é que «A Eslovénia nos últimos anos aumentou a sua dívida pública dos cerca de 20 a 25% a até perto de 73% do PIB» [en], afirmou Čufer. Quando a última emissão de títulos em dólares e em duas tranches tenha sido analisada, começarão as preparações para outra, disse numa entrevista televisionada. E, segundo se prevê, isto irá de novo fazer aumentar a dívida pública eslovena, para cerca de 77,7% do PIB [en].

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